sábado, maio 21, 2011

O Mito da Princesa - Parte 2


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O que a princesa Kate tem de semelhança com a princesa Diana? Asseguro a vocês que, por enquanto, somente o inconsciente coletivo das pessoas mobilizado para que alguém a substitua.
No mês em que Bin Laden foi, supostamente assassinado, as pessoas sentem cada vez mais a necessidade de comparações, na esperança de encontrarem princesas em pleno século XXI. Mas para surpresa de alguns, o mito da princesa está vivo, sinal que ainda exite certa carência do lúdico em nossas vidas.
A “Princesa do Povo” se tornou um mito após a sua trágica morte, em 31 de agosto de 1997, no túnel da Ponte de l’Alma,  em Paris.

 Os mitos nascem assim, e mobilizam em nós vários conteúdos internos construídos pela nossa cultura.

Diana inspira algo frágil, encantador, sedutor e manipulador em sua imensa vontade de agradar a todos. Quando muito jovem se casou com o gélido, distante, mas para ela, desejável Charles.

Seus traços mais aparentes são a vulnerabilidade, carência e o uso da sedução na busca de ser amada.

Em seu casamento de contos de fadas, com direito a toda pompa e carruagem,  Diana estava reeditando o mito da princesa raptada e enclausurada num mundo de muito brilho aparente, que para ela equivaleu aos caminhos sombrios e tenebrosos do mundo de Hades, seu inferno pessoal, porque o amor não estava lá, e nem a princípio, a chance de ser ela mesma.

Depois do casamento no palácio vem o "foram felizes para sempre". Radicalmente diferente do padrão açucarado, para  ela este foi o início do seu processo de vitimização, papel que, pela sua personalidade, lhe caia bem com a ajuda de seu narcísico marido, que sentia muito ciúme da beleza e carisma que ela invocava do povo inglês.
Seu casamento foi minado pela rejeição de sua nova família e ao que consta, pela indiferença e infidelidade de seu marido. A infelicidade a levou a bulimia e o fascínio pela morte que a acompanhavam sempre, através da depressão. Estes foram talvez os piores dragões que ela encontrou, tanto mais poderosos por serem internos. Quase cedeu a eles, mas os enfrentou levando para o mundo seu imenso desejo de amor. Seu trabalho com pessoas desvalidas foi adquirindo uma dimensão muito especial, e dava para perceber um impulso verdadeiro por trás do sorriso que era constantemente filmado e fotografado. A generosidade , coragem e autenticidade com que tocou leprosos , abraçou aidéticos e vítimas de minas anti - pessoais , envolvendo até moribundos com seu calor , falam de um resgate profundo de sua dor.
Intensamente amada, nunca pela monarquia, mas pelo povo, foi aprendendo a valorizar seu próprio sorriso , ternura e espontaneidade , adquirindo aos poucos alguma autoconfiança e com ela o direito de tentar buscar seus próprios caminhos. Sempre "raptada" por amantes ou situações que finalmente a traiam, continuou teimosamente tentando ser Diana.
Elizabeth, perpetuadora das tradições da corte, cuidava para que tudo ficasse protegido pelos muros de concretos do palácio. Mas Diana insistiu em revelar a sua dor, com seu olhar vitimado e complacente. Duramente criticada por isso e por não ser uma pessoa intelectualmente preparada, foi provando, ao ofuscar sogra e marido com seu carisma e seu instinto, que intuição e sentimentos podem ter uma grande sabedoria . Com isso Diana propôs um modelo diferente da tão desencantada celebridade, que era o padrão único de bom gosto e adequação na classe alta européia.
“Em seu enterro pode ser visto a extensão do efeito que Diana causou ao se permitir ser mais gente do que princesa, quando os ingleses , um povo tão reprimido e frio, puderam chorar abertamente . Durante séculos foi valorizado nesta cultura a impassibilidade como sinal de força , até que não só a expressão do sentir como o próprio sentir foram asfixiados . Agora , ao contrário , os ingleses até exigiam ( " Queremos ver sua aflição ! " ) da família real um comportamento mais empático e caloroso . A rainha Elizabeth passou a ser vista como uma " bruxa gélida " e Diana teve sua vingança quando ela , quebrando o protocolo, teve que sucumbir às exigências e fazer um pronunciamento declarando sua tristeza, e exibir a bandeira a meio pau , sinal de luto. Muito simbólico, isso, pois se o mundo estava de luto por Diana a rainha só poderia estar pelo efeito que a princesa causara em seu reinado...A casa de Windsor seguramente não terminará, o efeito "heróico" de Diana é mais sutil que isso, mas foi forçada pelo menos temporariamente a se adaptar a um novo estilo.”  Citado por Maria Liberman (psicanalista junguiana).
Elizabeth permaneceu como rainha má, enquanto Diana  se eternizou “princesa do povo”, transcendendo  aos títulos que lhe foram tirados.
Permanece ainda a pergunta que fiz no início? Kate ou Diana?
Não há comparação a ser feita por enquanto. A que tudo indica Diana, mãe afetuosa, mostrou os filhos ao mundo fora dos muros reais. Educou-os a seu modo e pavimentou o caminho que pode levar William à proximidade entre a família real e seu povo, podendo ser efetivamente o rei, caloroso e não de gelo como Charles.

 Será possível que o  mito da princesa constela em mulheres que atraem consequentemente homens narcísicos, ou vestem mulheres infelizes e incapazes de mudar seu destino?
Será o arquétipo da princesa enraigado em muitas mulheres que pensam em pagar o alto preço do machismo e da submissão em prol da família, perdendo-se entre a responsabilidade e a crença de que ser mulher é colocar-se ao inteiro dispor de outros e esquecer de si mesma?


O mito da princesa revela, antes de tudo, a necessidade que muitas mulheres sentem de estar sob os cuidados do "príncipe", sucumbindo a ela a isenção da responsabilidade em ser feliz por si mesma..

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