domingo, julho 17, 2011

Cisne Negro





Este instigante filme nos mostra várias coisas. Mas, venho analisá-lo aqui, não sob o ponto de vista da doença como ele denota, mas sob a ótica do auto conhecimento. Explico: o que mais me incomodou, ou seja, o que me deixou intrigada neste filme, foi a forma como foi colocado os dois lados que todos temos, a cisão da meiguice e a agressividade, a mãe boa e a mãe má, ou a loucura e a normalidade, como queiram.
Como em nós é cultivado a falsa bondade, ou a bondade a todo custo, inclusive ao custo de sempre ceder. Ceder aos desejos alheios para que sejamos aceitos. É isso mesmo, toda vez que dizemos sim a tudo, estamos na realidade dizendo não a nos mesmos.
A mania de perfeição colocada sob o corpo de uma bailarina, que simboliza o corpo magro pefeito e ao mesmo tempo a punição deste corpo, através da automutilação, quando ela se fere e precisa cortar as unhas para minimizar seu ferimentos que por causa da roupa de bailarina se coloca à mostra, e necessariamente precisa estar perfeito, intacto. Nina é a personificação da bailarina: meiga, delicada, bonita e passiva. Ela busca obsessivamente a perfeição.
Os pés, constantemente no ar, ou na ponta dos pés, podem representar uma perda de contato com a responsabilidade de se sustentar sobre os próprios pés. A dificuldade em aceitar a vida com suas concretudes do bem e do mal.

Na busca por viver o Cisne Negro ela precisa entrar em contato com a sua sombra e em tudo que lá habita. Porém, por estar tão distante desses lados da sua personalidade acaba sendo tomada por eles. E se perde.
Entre vários aspectos interessantes da trama, Cisne Negro mostra como acontece o processo que Jung chamou de dissociação da personalidade. Todos os lados que não aceitamos em nós mesmos ficam na sombra e por estarem reprimidos tendem a aparecer de forma descontrolada, com muita intensidade.

A protagonista é uma garota tiranizada pela mãe e pelo diretor do espetáculo, mas não consegue se defender pois dentro da sua personalidade não cabe a mulher agressiva e ativa, cabe apenas a menina meiga.
A doce meNINA é parte integrante do desejo materno. Uma mãe muito dedicada que convive com a frustração de uma impossibilidade. Vivendo em um mundo de controle disfarçado de carinho, a atormentada Erica (mãe de Nina – mais uma ótima interpretação de Barbara Hershey), que abandonara a carreira de bailarina para ter sua filha: é nela que irá depositar todos os seus desejos, preço alto à personalidade de Nina. A menina torna-se a realização do desejo materno: “eu faço porque quero ser perfeita”, fala de Nina ao diretor da companhia.
A Lily, o “black swan” emerge do desejo imperativo do Outro que interroga a própria existência da “Nina”. Você tem capacidade de sentir, de ser um cisne negro? De ser dividida?
Ao mesmo tempo em que Lily é uma possível adversária ao posto de estrela do espetáculo, é ela o catalisador destas descobertas de Nina sobre si mesma, é o espelho, é a suplência, é a báscula onde Nina tenta se firmar.
 E é a partir daí que o filme se divide entre a realidade de Nina e a realidade da estória.

 Darren Aronofsky trata com delicadeza e visceralidade toda a sua produção, mas aqui, ele consegue atingir um nível diferente, quando funde imagem e narrativa de forma brilhante, transformando assim, a imagem vista pelo espectador na loucura de Nina: em determinado ponto do filme não há mais diferenciação. Nina/Lily, Lily/Nina, Nina/Nina, black swan/black-white.

No caso da protagonista, a sombra contém conteúdos projetados de sua mãe, que também quis ser bailarina quando jovem, mas desistiu do sonho para cuidar da filha. É como se Nina carregasse esse fracasso da mãe, que de certa forma a aprisiona em um mundo infantilizado e sob aparente controle. Entretanto, vê-se claramente o amor da mãe pela filha, mas esse amor é manifesto sob o crivo da doença, da loucura na qual ambas estão mergulhadas.
A cena final, Nina X Lily X black swan X Nina, é magistralmente concebida e a reviravolta que se apresenta depois é de uma inteligência enorme do roteiro: o espelho, os reflexos, o duplo contra o quê Nina insistia em lutar, foi usado para mostrar do que Nina se defendia: dela mesma.
 O que permanece muito forte, um dos cumes deste roteiro, 
é quando o diretor do espetáculo (vivido por Vincent cassel)  incita Nina, assim como a nós todos, dizendo: "A única pessoa no seu caminho é você mesma."



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