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A dupla transferência

Um casal já maduro estava participando de um curso de desenvolvimento pessoal. Na primeira noite a mulher sumiu. Só reapareceu na manhã seguinte, quando postou diante do marido e lhe disse: "passei a noite com meu amante".

Com outras pessoas essa mulher se mostrava atenciosa e interessada. Só diante do marido ficava fora de si. Os outros não conseguiam entender. Por outro lado, o marido também não conseguia se defender.

Apurou-se durante o curso que essa mulher, quando criança, era mandada para o campo com a mãe e os irmãos, durante o verão, por ordem do pai. Ele ficava na cidade com sua amante e, às vezes ia com ela visitar a família. E sua mulher os servia, sem queixas nem recriminações. Ela reprimia sua raiva e sua dor, e os filhos percebiam isso.

Essa atitude, que alguns chamariam de virtude heróica, tem um péssimo efeito. Pois, nos sistemas humanos, a raiva reprimida volta à tona mais tarde, justamente nas pessoas que menos podem defender-se contra ela. Na maioria das vezes, nos filhos ou netos, eles sequer chegam a tomar consciência disto.

Nesse caso houve um duplo deslocamento da emoção reprimida.
Em primeiro lugar, para um outro sujeito: da mãe para a filha.
Em segundo, para um outro objeto: o pai culpado para o marido inocente. Tornou-se vítima a pessoa menos apta a se defender, porque amava a ofensora.

Portanto quando os inocentes preferem sofrer a agir, aumenta o número de vítimas inocentes e de ofensores culpados, perpetuando-se o ciclo de sofrimentos.

Em nosso exemplo, asolução teria sido que a mãe da mulher se zangasse abertamente com o marido. Aí ele seria obrigado a tomar uma atitude, o que levaria a um recomeço ou a uma clara separação.

Nesse caso, demonstra-se ainda que quando a filha  vinga a mãe, ama não somente a ela, mas também ao pai. Pois ela o imita, agindo com o marido da mesma forma que o pai agia com a mãe.

Esse é um dos exemplos do que o trabalho de constelação familiar desvenda.
Culpa e inocência nos relacionamentos
por Bert Hellinger

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