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Entenda a DEPENDÊNCIA AFETIVA



Todos conhecem a história: eles se conhecem e rapidamente se apaixonam. Vivem um período intenso em que aquele amor parece tudo e a sensação completude, eterna. As diferenças de comportamento e valores não importam, são detalhes frente a tanta sorte. Até que, com a passagem do tempo e o amadurecimento da relação, as diferenças começam a ficar mais acentuadas. A novidade já não é mais tão surpreendente assim, o frio na barriga se dissipa: chegou o cotidiano. E com ele aqueles "detalhes" que pareciam irrelevantes tomam um grande vulto.

Esse parece ser o caminhar de qualquer parceria afetiva iniciada com um belo encontro romântico, correto? Mas e os desfechos possíveis? Bom, são o motivo de inúmeras das mais lindas obras de arte, mas na prática são apenas dois: ficam juntos ou não. Se o casal aqui descrito for composto de duas pessoas adultas e relativamente saudáveis, espera-se que eles sejam capazes de fazer os ajustes necessários para que a relação perdure, negociando seus termos para que possam, ambos, viver de maneira satisfatória.

No entanto, se no casal houver um dependente afetivo, a chance de o final ser esse é bem menor. A dependência afetiva (ou Love Addiction em inglês) é caracterizada pela dependência em estar apaixonado. Sendo assim, é bem provável que o relacionamento acabe, pois o dependente afetivo não consegue estar vinculado ao outro de maneira menos intensa. Como ele sente que não consegue viver sem o outro, pode ficar patologicamente ciumento, ter oscilações de humor frente a ausências breves do companheiro e sente-se vazio quando o outro não está. Tal comportamento acaba gerando muitos desentendimentos, que, dependendo de sua intensidade, podem envolver agressões verbais e/ou físicas.

Todos nós fomos absolutamente dependentes de outro ser humano na primeira infância. Na maioria dos casos, das nossas mães. Elas foram absolutamente necessárias para alimentar-nos, limpar-nos e apresentar-nos ao mundo e às nossas próprias sensações através de sua presença tão importante. No entanto, na medida em que crescemos, elas nos encorajam a levar uma vida independente e nós nos alegramos com cada etapa vencida rumo à autonomia. O dependente afetivo, no entanto, parece ter ficado parcialmente enredado nessa etapa do desenvolvimento, e ainda espera que uma única pessoa satisfaça suas necessidades de afeto e completude, tal qual a mãe o fazia quando pequeno.

Anáclise é o nome técnico desta vinculação patológica entre duas pessoas adultas. Assim, o dependente afetivo pode viver a ausência da pessoa amada com uma reação muito intensa, como se fosse uma abstinência. Tal reação pode até ser violenta, dependendo do seu temperamento. Esta não é uma patologia descrita em manuais diagnósticos, mas podemos observá-la com alguma frequência em pacientes portadores de algumas patologias psiquiátricas, tais como os Transtornos de Personalidade Histriônica, Borderline, Dependente e também entre dependentes químicos. Em nossa cultura latina essa intensidade de afetos pode, para muitos, significar um grande amor. São muitos os homens que falam orgulhosos: "Minha mulher é ciumenta demais, me ligou trinta vezes ontem porque atrasei para chegar em casa". Muitas mulheres se envaidecem quando seus antigos parceiros as procuram em ocasiões impróprias e com insistência para retomar a relação fracassada. O controle que essas pessoas exercem sobre o outro pode ser mal traduzido como cuidado.

Por isso ouvimos falar tanto nesses desfechos trágicos de relações amorosas muito intensas. Entre tantos turbilhões fica difícil estabelecer diálogo para aparar as arestas, sempre presentes em qualquer relação humana. Não há espaço para meio-termo, para fala calma entre duas pessoas adultas que se querem bem. Sobram acusações, cada um culpando o outro pela morte daquela fase tão bela do encontro. Afinal, a paixão é um estado de espírito inconfundível e sinônimo de felicidade na nossa cultura ocidental. Lindo demais para acabar em tragédia.


Clínica Medicina do Comportamento - Site oficial da Dra. Ana Beatriz Barbosa Silva

Texto da Dra. Ana Carolina Barcelos Cavalcante Vieira

Médica Psiquiatra - Universidade de Brasília

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